Obesidade, testosterona e desejo: a ligação
Nos homens, o excesso de gordura, principalmente a da barriga, costuma baixar a testosterona. Em muitos casos, a glândula e o eixo hormonal estão funcionando, mas ficam "freados" pelo excesso de peso e pelas doenças que vêm junto, como diabetes e apneia do sono. Os médicos chamam isso de hipogonadismo funcional. A boa notícia é que esse quadro pode se reverter em parte: em muitos homens com obesidade, a testosterona sobe quando o peso cai.[5]
Por isso, para muitos homens com obesidade, o caminho para melhorar a testosterona passa primeiro pelo tratamento do peso, e não por uma injeção de hormônio. Cada caso, claro, precisa de avaliação.
A apneia do sono também entra nessa conta: homens com apneia produzem menos testosterona durante a noite. Saiba mais em apneia do sono e obesidade.
Mounjaro e Ozempic aumentam a testosterona?
Os dados mais recentes vêm de um estudo da Mayo Clinic, nos Estados Unidos, apresentado no congresso da Associação Americana de Urologia em maio de 2026.[1] Os pesquisadores revisaram prontuários de homens que usaram semaglutida ou tirzepatida entre 2018 e 2025:
- Em 1.629 homens, a mediana da testosterona total passou de 320 para 419 ng/dL.
- Em 1.216 homens com testosterona livre medida, a mediana passou de 9 para 10,4 ng/dL.
- A subida não acompanhou apenas a perda de peso, o que sugere que outros fatores podem estar envolvidos.
Uma revisão publicada na revista Andrology em 2026, com 8 estudos e 375 homens com sobrepeso ou obesidade, também encontrou aumento da testosterona total e livre e melhora da função erétil com remédios dessa classe.[2]
Agora, as ressalvas, que são importantes:
- O estudo da Mayo Clinic olhou dados antigos dos pacientes (estudo retrospectivo), não teve grupo de comparação e, até agora, foi publicado só como resumo de congresso. Os próprios autores pedem estudos planejados para confirmar.
- A revisão da Andrology reuniu poucos pacientes.
Então o que dá para dizer é que, em homens com obesidade, a testosterona tende a subir durante o tratamento. Não é possível garantir isso para uma pessoa específica.
O que os estudos mostram, lado a lado
| Estudo | Tipo | Quem participou | O que achou | Limite |
|---|---|---|---|---|
| Mayo Clinic, AUA 2026[1] | Retrospectivo, resumo de congresso | 1.629 homens com semaglutida ou tirzepatida | Testosterona total de 320 para 419 ng/dL (mediana) | Sem grupo de comparação |
| Andrology (2026)[2] | Revisão com meta-análise | 8 estudos, 375 homens | Mais testosterona e melhora da função erétil | Poucos pacientes |
| Andrology (2025)[5] | Revisão com meta-análise | 7 estudos, 680 homens | Aumento modesto da testosterona | Não mostra efeito direto no testículo |
| J Sex Med (2026)[3] | Resumo de congresso | Adultos saudáveis | Sem queda significativa da libido | Resumo, dados limitados |
| FAERS, EUA[4] | Notificações de efeitos adversos | 182 notificações em homens | Associação fraca com disfunção sexual | Notificação não prova causa |
| Relato de caso (2025)[6] | Um caso | 1 mulher com tirzepatida | Queda de desejo que melhorou ao parar | Um único caso |
Então por que algumas pessoas sentem menos desejo?
Uma revisão apresentada em 2026 no Journal of Sexual Medicine concluiu que esses remédios não diminuem de forma significativa a libido em adultos saudáveis, e que os relatos de queda são raros.[3] No sistema americano de notificação de efeitos adversos, houve 182 notificações de disfunção sexual em homens, com associação fraca com o remédio.[4]
Quando o desejo cai durante o tratamento, costuma haver motivos que dá para investigar:
- Cansaço, principalmente nas primeiras semanas ou depois de um aumento de dose.
- Náusea e mal estar.
- Comer pouco, com pouca energia e pouca proteína.
- Mudança de humor, ansiedade ou desânimo.
- Autoimagem, que muda com o corpo e nem sempre no ritmo esperado.
- Outros remédios em uso, como alguns antidepressivos e remédios para pressão.
Pesquisadores também estudam a hipótese de que esses remédios atuem no sistema de recompensa do cérebro, a mesma região ligada ao prazer de comer. Por enquanto, é só uma hipótese.
E nas mulheres?
Aqui a evidência é escassa. O que existe de mais específico é um relato de caso de 2025: uma mulher de 36 anos teve queda de desejo, ressecamento e dificuldade de orgasmo usando tirzepatida, que melhoraram quando ela parou o remédio e voltaram quando retomou.[6] É um único caso, que não mostra com que frequência isso acontece.
Nas mulheres, a libido também é influenciada por muitos outros fatores, como menopausa, anticoncepcional, humor, sono e relacionamento. Se você está nessa fase, leia menopausa, peso e sono.
Posso usar caneta e testosterona juntas?
Só com indicação médica e exames. A reposição de testosterona tem critérios bem definidos e riscos, como aumento do hematócrito (o sangue fica mais "grosso") e efeitos na fertilidade. A revisão da Andrology cita a combinação de caneta e testosterona como uma opção em casos selecionados, não como regra.[2]
Nunca use testosterona por conta própria, nem para "compensar" a caneta. Em muitos homens com obesidade, o próprio tratamento do peso já faz a testosterona subir, e a necessidade de reposição precisa ser avaliada depois, com exames.
Quando investigar a queda de desejo
Converse com o seu médico se você notar:
- queda do desejo que dura semanas;
- dificuldade de ereção;
- cansaço importante;
- humor deprimido ou desânimo;
- ciclo menstrual alterado.
O médico pode pedir exames, como a testosterona total colhida pela manhã, entre outros, de acordo com cada caso.
Se a queda do desejo vier junto com tristeza ou ansiedade, leia também Mounjaro e Ozempic dão ansiedade ou depressão?
Como avaliamos na Spazio Essenza
Falar de vida sexual no consultório é normal, e a conversa é feita com discrição. Na consulta, avaliamos a história clínica e sexual, o peso, o metabolismo, os remédios em uso e pedimos exames quando há indicação. O plano é individual. Quando for o caso, encaminhamos para avaliação com urologia ou ginecologia.
A consulta é particular, com hora marcada, na Spazio Essenza: CEO Offices, Av. João Cabral de Mello Neto, 850, Bloco 2, Sala 812, Barra da Tijuca. Veja como funciona a consulta ou fale conosco pela página de contato.
Quer conversar sobre o seu caso?Consulta particular, com hora marcada, na Barra da Tijuca.
Agendar pelo WhatsAppPara entender melhor as opções, leia também semaglutida ou tirzepatida: qual a diferença e como funciona o tratamento da obesidade.
Leia também: Mounjaro e Ozempic dão ansiedade ou depressão?
Perguntas frequentes
Mounjaro tira a libido?
Na maioria das pessoas, não. Os estudos não mostram queda significativa da libido com a tirzepatida (Mounjaro) ou com a semaglutida (Ozempic), e os relatos são raros. Quando o desejo cai, costuma haver causas como cansaço, náusea, comer pouco ou mudança de humor.
Mounjaro baixa a testosterona?
Em homens com obesidade, o mais comum é o contrário: a testosterona tende a subir durante o tratamento com tirzepatida (Mounjaro) ou semaglutida (Ozempic). Isso não acontece com todos.
Mounjaro aumenta a libido do homem?
Pode haver melhora do desejo e da ereção com a perda de peso e a subida da testosterona, mas não há garantia. Cada pessoa responde de um jeito.
Mounjaro afeta a libido da mulher?
Há poucos dados. Existe um relato de caso de uma mulher que teve queda de desejo com tirzepatida (Mounjaro), o que não mostra a frequência. Vale investigar também outras causas, como menopausa, anticoncepcional e humor.
Posso tomar Mounjaro e testosterona juntos?
Só com indicação e acompanhamento médico, com exames antes e durante o uso. Não use testosterona por conta própria.
Ozempic causa disfunção erétil?
As notificações são raras e a associação encontrada foi fraca. Em homens com obesidade, a função erétil tende a melhorar com o tratamento do peso. Se houver dificuldade de ereção, converse com o médico.
Sobre o autor
Referências
- Guillén Lozoya AH, Bonakdar Hashemi M, Helo S, Ziegelmann M, Kohler T. PD26-01 Testosterone levels improve in men under GLP-1 receptor agonist therapy. Journal of Urology, resumo do AUA 2026. www.auajournals.org
- Emerging Effects of Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists and Sodium-Glucose Cotransporter 2 Inhibitors on Male Sexual Hormones and Behaviors: Systematic Review and Meta-Analysis. Andrology, 2026. doi.org
- (119) Exploring the Impact of GLP-1 Analogues on Libido and Sexual Function. The Journal of Sexual Medicine, 2026 (resumo de congresso). doi.org
- Male sexual dysfunction associated with GLP-1 receptor agonists: a cross-sectional analysis of FAERS data. International Journal of Impotence Research. www.nature.com
- Salvio G, et al. Effects of glucagon-like peptide 1 receptor agonists on testicular dysfunction: A systematic review and meta-analysis. Andrology 2025. onlinelibrary.wiley.com
- Mohammed GF, et al. Tirzepatide Affect Sexual Function in Women: Case Report. 2025. pmc.ncbi.nlm.nih.gov
Atualizado em 4 de novembro de 2026. Revisão médica: Dr. Bruno Menezes, MÉDICO, CRM 52.99024-8/RJ, Diretor Técnico Médico. Isto é informação, não prescrição. Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica.