Assista: por que o estudo FLOW parou antes do tempo
Este vídeo curto já está publicado no Instagram do Dr. Bruno e foi gravado a partir de uma palestra em Angra dos Reis. A página reaproveita o mesmo vídeo, sem nova gravação.
O estudo FLOW foi interrompido antes do tempo
Em vídeo, o Dr. Bruno Menezes explica por que o comitê parou o ensaio da semaglutida em doença renal: o benefício já estava claro.
Ver no Instagram @drbrunomenezesO que o vídeo explica: um estudo foi interrompido antes do tempo, e o motivo é a parte interessante. O FLOW testou a semaglutida 1 mg, a mesma substância do Ozempic, em pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica. O comitê independente de segurança parou o estudo mais cedo porque, na análise intermediária, o resultado já era claro: 24% menos eventos renais e cardiovasculares graves. Quando a diferença fica óbvia, continuar dando placebo para quem tem uma doença de verdade deixa de ser ético. Na mesma época, a semaglutida acumulou outros estudos de desfecho, como o ESSENCE no fígado, o SOUL com a versão em comprimido e o STRIDE na doença arterial periférica. Fonte: Perkovic V e colaboradores, NEJM 2024;391(2):109 a 121. O estudo foi financiado pela Novo Nordisk, fabricante do Ozempic.[3] Conteúdo educativo, que não substitui a consulta médica.
Por que essa dúvida existe
Obesidade, diabetes tipo 2 e pressão alta estão entre as causas mais comuns de doença renal. Quem começa uma caneta para o peso muitas vezes já tem um desses fatores e, com razão, se preocupa com o rim.
Além disso, as bulas trazem um aviso sobre desidratação e função renal, e nas redes sociais circulam relatos de "creatinina alta depois da caneta". Juntando tudo, é fácil concluir que o remédio faz mal ao rim. Os dados mostram um quadro diferente, com um cuidado prático importante.
O que a bula diz sobre rim e desidratação
Para o Mounjaro (tirzepatida), o próprio fabricante informa que não é preciso ajustar a dose em pessoas com comprometimento renal, incluindo quem tem doença renal em fase terminal.[1] Isso vem de estudos de farmacocinética, que mostraram que o remédio se comporta de forma parecida com rim normal ou alterado.
O alerta das bulas é outro. Náusea, vômito e diarreia, que são efeitos comuns da caneta, podem levar à desidratação. E a desidratação pode piorar a função do rim, em alguns casos até causar insuficiência renal aguda.[1][2] A bula do Ozempic (semaglutida) segue a mesma linha e orienta beber líquidos para evitar a desidratação.[2]
Ou seja: o problema descrito não é o remédio agindo direto sobre o rim, e sim o rim recebendo menos líquido quando o estômago e o intestino reagem mal.
O estudo FLOW: semaglutida e doença renal
O FLOW, publicado no New England Journal of Medicine em 2024, é o estudo mais forte sobre a caneta e o rim.[3]
- Quem participou: 3.533 adultos com diabetes tipo 2 e doença renal crônica.
- O que comparou: semaglutida 1 mg uma vez por semana contra placebo.
- O que mediu: um conjunto de eventos graves, como falência do rim, queda de pelo menos 50% da filtração, morte por causa renal ou cardiovascular.
- O que achou: 24% menos eventos graves com a semaglutida. A filtração do rim também caiu mais devagar, cerca de 1,16 mL/min/1,73 m² a menos por ano.
- Por que parou cedo: na análise intermediária, o benefício já estava claro, e continuar com placebo deixou de ser ético.
- Quem financiou: a Novo Nordisk, fabricante do Ozempic.
E quem não tem diabetes?
O FLOW estudou pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal. Para quem tem obesidade sem diabetes, o benefício renal está menos documentado. Não dá para estender o resultado do FLOW para todo mundo, e os exames de rim continuam valendo durante o tratamento.
E o Mounjaro (tirzepatida)?
Para a tirzepatida ainda não existe um estudo dedicado ao rim como o FLOW. O que existe é uma análise posterior do estudo SURPASS 4, publicada em 2022, em pessoas com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular, comparando a tirzepatida com a insulina glargina.[4]
- A filtração do rim caiu mais devagar com a tirzepatida.
- A perda de proteína na urina (albuminúria) foi menor.
- Um conjunto de eventos renais foi 42% menor, puxado sobretudo por menos casos novos de perda importante de proteína na urina.
A mensagem é honesta: o sinal para a tirzepatida é favorável, mas a certeza ainda é menor que a da semaglutida. Para entender as diferenças entre as duas, leia semaglutida ou tirzepatida: qual a diferença.
O que os estudos mostram, lado a lado
| Estudo | Quem participou | O que achou | Limite |
|---|---|---|---|
| FLOW (NEJM, 2024)[3] | 3.533 pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal, semaglutida | 24% menos eventos renais e cardiovasculares graves | Só pessoas com diabetes; financiado pelo fabricante |
| SURPASS 4, análise posterior (Lancet Diabetes Endocrinol, 2022)[4] | Pessoas com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular, tirzepatida contra insulina | Queda mais lenta da filtração e menos albuminúria | Análise posterior, sem placebo, desfecho puxado pela albuminúria |
| Bulas e informação do fabricante[1][2] | Uso aprovado | Sem ajuste de dose pela função renal na tirzepatida; alerta de desidratação | Não é estudo de benefício |
Creatinina alta: o exame engana?
A creatinina é produzida pelos músculos. Por isso, o valor no exame depende também da quantidade de músculo da pessoa. Quem emagrece e perde massa muscular pode ver a creatinina baixar sem que o rim tenha "melhorado". E quem desidrata pode ver a creatinina subir mesmo com um rim saudável.
Por isso, o exame não deve ser lido sozinho. Em geral, o médico olha junto a filtração estimada (TFGe), a relação entre albumina e creatinina na urina e, em alguns casos, a cistatina C, um outro marcador que depende menos do músculo. Se o seu exame mudou, leve o resultado para a consulta em vez de tirar conclusões pela internet.
Quando a caneta pode, sim, prejudicar o rim
Na prática, as situações de risco costumam ser previsíveis:
- Vômito ou diarreia fortes, sem conseguir beber líquido.
- Aumento da dose rápido demais, com mais enjoo.
- Uso sem acompanhamento médico e sem exames.
- Um dia de desidratação somado a remédios que também pesam sobre o rim, como anti inflamatórios, diuréticos e alguns remédios de pressão. Não suspenda nenhum deles por conta própria; converse com quem prescreveu.
- Canetas de origem irregular, sem garantia do que há dentro.
Se o enjoo tem sido um problema, a hidratação é a primeira proteção do rim.
Quem tem doença renal, um rim só ou faz diálise
Em muitos casos, quem tem doença renal pode usar a caneta. Segundo o fabricante do Mounjaro, a dose não muda conforme a filtração do rim.[1] O que muda é a vigilância: exames mais frequentes e atenção redobrada à hidratação.
- Um rim só: a margem é menor se houver desidratação, então o cuidado com enjoo e vômito é maior.
- Diálise ou transplante: os dados são escassos. A decisão é feita caso a caso, junto com o nefrologista que acompanha você.
Não existe "pode sempre" nem "nunca pode". A resposta depende do seu exame, dos seus remédios e da sua história.
Sinais para procurar ajuda
Procure o seu médico ou um pronto atendimento se, usando a caneta, você tiver:
- vômito ou diarreia que impedem beber líquidos;
- urina muito escassa ou muito escura;
- inchaço novo nas pernas ou no rosto;
- confusão ou sonolência fora do comum;
- dor abdominal forte e persistente.
Em emergência, ligue para o SAMU, no 192.
Como avaliamos na Spazio Essenza
Na consulta, conversamos sobre a sua história, os remédios em uso e os fatores que pesam sobre o rim, como diabetes e pressão alta. Quando indicado, pedimos exames de função renal antes e durante o tratamento. A caneta só entra quando há indicação, e o acompanhamento inclui orientação sobre hidratação e sobre o que fazer se o enjoo aparecer. Quando você já tem nefrologista, conversamos com ele sempre que for necessário.
A consulta é particular, com hora marcada, na Spazio Essenza: CEO Offices, Av. João Cabral de Mello Neto, 850, Bloco 2, Sala 812, Barra da Tijuca. Veja como funciona a consulta ou fale conosco pela página de contato.
Quer conversar sobre o seu caso?Consulta particular, com hora marcada, na Barra da Tijuca.
Agendar pelo WhatsAppPara entender melhor o tratamento, leia também como funciona o tratamento da obesidade, o que acontece ao parar a tirzepatida ou a semaglutida, se a caneta mexe com o suor e o cheiro, se ela causa ansiedade ou depressão e o que se sabe sobre libido e testosterona.
Leia também: Mounjaro muda o suor e o cheiro?
Perguntas frequentes
Mounjaro faz mal aos rins?
Nos estudos, a tirzepatida (Mounjaro) não aparece como remédio tóxico para o rim, e a análise do SURPASS 4 mostrou um sinal favorável. O risco prático é a desidratação causada por enjoo, vômito ou diarreia, que pode piorar a função do rim.
Ozempic faz mal aos rins?
No estudo FLOW, a semaglutida (Ozempic) reduziu em 24% os eventos renais e cardiovasculares graves em pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal. A bula alerta para o risco de piora do rim por desidratação, por isso a hidratação é importante.
Mounjaro aumenta a creatinina?
A creatinina pode subir se houver desidratação. Por outro lado, a perda de músculo durante o emagrecimento pode baixar a creatinina sem o rim ter mudado. O exame deve ser interpretado pelo médico, junto com outros marcadores.
Quem tem insuficiência renal pode tomar Mounjaro?
Em muitos casos, sim. Segundo o fabricante, a dose da tirzepatida (Mounjaro) não muda pela função do rim, inclusive na doença renal avançada. A vigilância é maior, e quem faz diálise precisa de decisão caso a caso com o nefrologista.
Preciso fazer exame de rim antes de começar a caneta?
Em geral, sim. Creatinina, filtração estimada e exame de urina costumam fazer parte da avaliação. O médico decide quais exames pedir para o seu caso.
O que fazer se estiver vomitando e usando a caneta?
Beba o que conseguir, em pequenos goles, e avise o seu médico. Se não conseguir se hidratar, ou se a urina diminuir muito, procure atendimento. Não mude a dose por conta própria.
Mounjaro causa pedra no rim?
Pedra no rim não é o tema desta página. Dor forte nas costas, principalmente com febre ou sangue na urina, pede avaliação médica.
Sobre o autor
Referências
- Lilly Medical Brasil. Comprometimento renal (Mounjaro / tirzepatida). Revisão de 28/03/2025. medical.lilly.com · Farmacocinética: Urva S, et al. Clin Pharmacokinet 2021. doi.org
- Bula para o paciente de Ozempic (semaglutida), Novo Nordisk. www.novonordisk.com.br · Bulário Anvisa (Mounjaro e Ozempic): consultas.anvisa.gov.br
- Perkovic V, et al. Effects of Semaglutide on Chronic Kidney Disease in Patients with Type 2 Diabetes (FLOW). N Engl J Med 2024;391:109 a 121. www.nejm.org · ClinicalTrials.gov NCT03819153
- Heerspink HJL, et al. Effects of tirzepatide versus insulin glargine on kidney outcomes in type 2 diabetes in the SURPASS 4 trial: post hoc analysis. Lancet Diabetes Endocrinol 2022. www.thelancet.com · PubMed 36152639
Atualizado em 5 de novembro de 2026. Revisão médica: Dr. Bruno Menezes, MÉDICO, CRM 52.99024-8/RJ, Diretor Técnico Médico. Isto é informação, não prescrição. Não altere ou suspenda medicamentos sem orientação médica. Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica.